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Transtorno mental é ‘doença’? Trata com remédio?

Um dia já se entendeu que o inconsciente é uma espécie de depósito de sentimentos, cuja existência não queremos admitir e cujo conteúdo é malicioso ou desagradável.

Este armário de intimidades, sexuais e agressivas, parece fora de moda diante da nova etiqueta da exposição de fantasias, do uso público da intimidade, que faz nossa experiência social compartilhada oscilar entre o Big Brother e o stand up.

A versão brasileira deste envelhecimento do inconsciente deflagrou-se nos últimos tempos pela ascensão social da percepção de que o poder perdeu a vergonha, de que a religião perdeu a culpa e de que as pessoas comuns suspenderam seu sentido de civilidade.

Como se o inconsciente estivesse a céu aberto e não tivéssemos nada mais a reprimir, negar ou silenciar.

Chegando ao fim do armário, ali onde não há mais nada para recalcar, até mesmo nosso habitual cinismo foi substituído pela moral bruta da delação generalizada, dos cancelamentos e por uma súbita aparição de um pico de reação hipermoral.

Alguns poderão dizer que a hipótese do inconsciente a céu a aberto, como estado de guerra hobbesiana permanente, onde ricos e pobres preparam-se para o confronto final é um equívoco de leitura, pois estaríamos lidando apenas com o envelhecimento de formas superegoicas clássicas e a aparição de maneira de autocontenção agora mais ligadas à vergonha do que a culpa.

Não creio em absoluto neste retrato.

Em primeiro lugar porque o inconsciente não é um depósito, mas uma hipótese.

  • Uma hipótese é uma ficção ou uma suposição necessária para estabelecer relações prováveis entre causas e efeitos, mas também entre um determinado estado de coisas e a sua origem, história ou gênese.

Há ainda hipóteses que são modelos formais que permitem deduções e inferências capazes de explicar conjuntos de fenômenos. O filósofo da ciência Ian Hacking, recentemente falecido, mostrou como existem hipótese que criam certos efeitos, e elas são especialmente importantes quando falamos de tipos não naturais, de processos de difícil acesso ou de fenômenos sociais.

Por exemplo, elétrons, nêutrons e prótons não são efetiva e diretamente visíveis, mas a hipótese de sua existência e materialidade tornou-se um consenso nas ciências físicas.

Hacking se especializou em duas áreas diametralmente opostas da ciência: a história das matemáticas, a arqueologia da construção de instrumentos científicos (como lunetas, telescópios e microscópios) bem como a criação de figuras diagnósticas em psicopatologia.

Hacking foi crucial para que os psicanalistas entendessem que o inconsciente não é um fato, uma crença ou um conjunto de ideias, afetos ou intenções, mas simplesmente uma hipótese.

A hipótese psicanalítica se aplica a um conjunto extenso de fenômenos:

  • Sonhos,
  • Atos falhos,
  • Repetições de afetos,
  • Lógica de produção de piadas,
  • Maneiras de amar e odiar,
  • Mas também e sobretudo a gênese e estrutura de sintomas.

Para Hacking isso poderia ser melhor entendido se pensarmos a situação de tratamento como um homólogo de um laboratório experimental.

Ou seja:

  • A atitude do analista, sua maneira de escutar, sua maneira de incluir os efeitos de fala no interior da própria relação de tratamento caracterizam a hipótese do inconsciente não como uma crença mágica na conexão entre coisas, mas como um conjunto de operações de sentido, de autocompreensão, de recriação de laços entre palavras, lembranças e desejos, que baseiam-se na ideia de que faz parte da determinação de nossas formas de sofrimento a maneira como falamos, interpretamos, compartilhamos, sancionamos e até mesmo corrigimos nossa “teoria da transformação”.

Cada agrupamento estrutural de sintomas compreende uma espécie de performatividade autoconfirmativa.

Isso explica porque:

  • Paranoicos criam efeitos paranoicos que confirmam suas crenças delirantes,
  • Obsessivos vivem a confirmar suas superstições, temores e relações “irracionais”,
  • Histéricos confirmam persistentemente a indiferença da qual se queixam.

Mas a criação de tipos discursivos, historicamente consistentes, baseados em formas típicas ou recorrentes de usar a linguagem difere sensivelmente dos tipos patológicos criados por regularidade e correlação estatística.

Hipóteses transformativas diferem de hipóteses descritivas e ambas são distintas ainda de hipóteses reversas, que historicamente caracterizam ideologias, metafísicas e muitas manipulações de nossas crenças.

Conhecer envolve duas operações conjugadas que gostamos de separar tanto na prática científica, quanto no ensino da ciência. Isso cria dificuldades consideráveis pois torna a percepção social da ciência excessivamente normativa, como se ela fosse composta apenas por hipóteses descritivas.

Isso é reforçado por circunstâncias críticas nas quais a ciência é mobilizada para orientar, dirigir ou determinar o comportamento das pessoas, como por exemplo, durante a crise sanitária da pandemia de covid.

Uma pretensão normativamente unicista da ciência, sobrecarregando o problema da demarcação entre ciência e não ciência, acaba por impor métodos e procedimentos que tendem a suprimir outros estilos racionais de argumentação e justificativa, bem como outras práticas.

Agindo assim nos tornamos reféns de uma ciência que esconde seus compromissos não apenas com formas de vida, mas com a relatividade de suas próprias escolhas metodológicas.

Disso decorre a pouca atenção à história da ciência e a arrogância ou desdém, quando não punição e exclusão, contra todos os saberes e práticas que se apoiam no que Hacking chamou de outros estilos de raciocínio científico, com suas respectivas estratégias de argumentação.

Agindo como síndicos do condomínio científico, usando preconceituosamente a noção de pseudociência, confundindo premeditadamente falta de evidências com evidências negativas, no caso da Psicologia tal atitude costuma se apoiar em uma impostura mais grave: transportar regras da Medicina Baseada em Evidências para a Psicologia Baseada em Evidência, como se isso aumentasse a autoridade cognitiva dos argumentos.

Isso tende a transferir e homogeneizar nossa atitude diante das ciências em geral, como se as ciências humanas fossem se tornar realmente científicas apenas quando empregarem métodos surgidos e desenvolvidos pelas ciências naturais.

Ora, se as doenças mentais fossem doenças inteiramente naturais, indiferentes ao modo como nomeamos, descrevemos e autodescrevemos seus sintomas poderíamos passar sem dificuldade da Medicina para a Psicologia ou para a Psicopatologia.

O extenso trabalho de Ian Hacking mostrou os malefícios, incorreções e prejuízos de considerarmos nossos “transtornos mentais” como se fossem de fato expressão equivalente de “doenças”.

Por outro lado, toda a potência metodológica do transporte de evidência da medicina para a psicologia apoia-se nesta falsa identidade.

Se transtornos são doenças, negando aliás as recomendações expressas dos que introduziram este conceito de “disorder” (transtorno) na psiquiatria, podemos usar as mesmas táticas de investigação como o duplo cego, padrão ouro, parâmetros de referência de biomarcadores e curvas de prognóstico.

Observando este problema, Hacking chegou na ideia de que os “transtornos mentais” não são exatamente, ou pelo menos não em todos os casos, “tipos naturais”. Isso significa que eles não dependem apenas de um conjunto de sinais e sintomas que registramos de forma estável e regular ao longo da história.

Não temos apenas redescrições de uma mesma doença como a tuberculose, que já foi chamada de tísica, peste branca, doença do peito, ou a epilepsia, que já foi chamada de doença sagrada, ou doença dos reis.

No caso das doenças mentais, a forma como as nomeamos, muitas vezes, define e cria a essência do que estamos falando. A modulação da linha de base entre o que aceitamos como parte da vida e decidimos ser objeto e prerrogativa de uma intervenção terapêutica também é alterada.

Podemos construir “transtornos mentais” agrupando, por exemplo, um conjunto de signos e conferindo a relação entre eles uma consistência e confiança apenas e tão somente estatística. Em princípio, isso nos deveria abrir para a diversidade etnológica e historiográfica da psicopatologia.

Por outro lado, isso permitiu também que suspendêssemos a relação entre representar e intervir. Isso acabou nos privando de verdadeiras hipóteses transformativas, porque estávamos, pelo menos desde 1973, a descrever quadros, sem nos preocuparmos com a sua força etiológica, ou seja, sua cadeia causal passou a se desligar da maneira como descrevemos o fenômeno.

A “descoberta” de mais de 200 novas “doenças” mentais, em menos de 40 anos, várias delas convencionadas e arbitradas por pesquisadores diretamente interessados em uma determinada técnica de tratamento ou indústria farmacêutica, vem se mostrando um dos maiores embustes paracientíficos dos últimos tempos.

Uma crise que se estendeu para a suspeita generalizada da confiança nas pesquisas em psicologia conexas com estas áreas.

A diminuição do número de diagnósticos infantis, com o aumento do superquadro chamado “Transtorno do Espectro Autístico”, a partir de 2013, bem como as epidemias de “depressão”, depois “anorexia”, e agora o déficit de atenção com ou sem hiperatividade, entraram assim no rol das entidades suspeitas, assim como os transtornos de múltipla personalidade, estudados por Hacking, como uma epidemia americana, nos anos pós-guerra.

Em todos os casos aparece uma curiosa convergência entre a aparição ou disseminação de uma abordagem terapêutica e um aumento expressivo de casos.

Coincidência?

Ou estaríamos diante de um efeito de nominalismo dinâmico entre terapêutica reversa e manipulação normativa de signos?

Por exemplo, imaginemos que um astrônomo percebe a recorrência de certas estrelas no céu. Ele pode perfeitamente agrupá-las em tipos naturais, como as estrelas que distam de tal ponto, ou que emitem determinada quantidade de luz, ou que se encontram em um determinado estágio rumo à explosão final.

Mas ele pode também recorrer a tipos “artificiais” de agrupamentos. A constelação de sagitário imita um centauro com uma flexa. Estilizando um pouco o céu se torna habitado por peixes no aquário, gêmeos e animais mitológicos. Isso nada difere de signos, dispostos de modo simbólico, como a constelação de Cruzeiro do Sul, a Ursa Menor ou as Três Marias. Tais tipos dinâmicos possuem uma regularidade definida pelo ciclo das órbitas dos planetas.

Depois de 1973, os psicopatólogos renunciaram a tentar unificar os sistemas de descrição segundo hipóteses causais e passaram a desenhar tais tipos artificiais, deixando o problema da etiologia para depois.

Fato é que de lá para cá não se encontra os biomarcadores que nos fariam reconhecer se alguém está depressivo, apenas e tão somente pelo déficit de serotonina na fenda sináptica ou pelo déficit de dopamina nos neurônios do cérebro pré-frontal.

Mas a questão se tornou ainda mais dramática quando recentemente surgiram fortes evidências, com sucessivas meta-análises, simplesmente refutando a hipótese do déficit de serotonina = depressão.

Mas porque é tão difícil esclarecer as pessoas de que existem hipóteses descritivas, transformativas e hipóteses reversas sobre o sofrimento mental?

Quando alguém vê seu nome escrito no céu dizendo que existe algo como um unicórnio composto por estrelas e que permite nomear coisas que causam sofrimento, o efeito de reconhecimento é irresistível.

Imagine agora que as diferentes estrelas sejam compostas por signos vagos, ou extensivamente presentes em uma dada cultura tais como: falta de concentração, perda de detalhes, dificuldade de organização, procrastinação, perda de objetos, impulsividade verbal ou comportamental, dificuldade de esperar e impossibilidade de ficar parado. Escolha cinco em dez e complete a figura se estiver faltando o chifre.

Mas o sensacional seria se existisse um medicamento que faz melhorar disso tudo ao mesmo tempo.

Ou seja, hipótese reversa: se existe um remédio é porque existe uma doença.

Falso.

A coisa piora ainda mais quando quem está vendo estrelas é a mãe ou pai de uma criança que está indo mal na escola ou que não se adapta como as outras ao padrão de produção e desempenho de nossas escolas.

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