{"id":39298,"date":"2025-03-18T17:23:36","date_gmt":"2025-03-18T20:23:36","guid":{"rendered":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/2025\/03\/18\/divida-de-r-100-mil-no-tigrinho-leva-recepcionista-a-fazer-emprestimo-com-5-agiotas-choro-o-tempo-todo\/"},"modified":"2025-03-18T17:23:36","modified_gmt":"2025-03-18T20:23:36","slug":"divida-de-r-100-mil-no-tigrinho-leva-recepcionista-a-fazer-emprestimo-com-5-agiotas-choro-o-tempo-todo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/2025\/03\/18\/divida-de-r-100-mil-no-tigrinho-leva-recepcionista-a-fazer-emprestimo-com-5-agiotas-choro-o-tempo-todo\/","title":{"rendered":"D\u00edvida de R$ 100 mil no &#039;Tigrinho&#039; leva recepcionista a fazer empr\u00e9stimo com 5 agiotas: &#039;Choro o tempo todo&#039;"},"content":{"rendered":"<p><img  title=\"\"  alt=\"1ddae950-fb86-11ef-bbda-715b64a7b058.jpg D\u00edvida de R$ 100 mil no &#039;Tigrinho&#039; leva recepcionista a fazer empr\u00e9stimo com 5 agiotas: &#039;Choro o tempo todo&#039;\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/qasc652_4UO3CodsShWWQjX7CTM=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2025\/h\/9\/gKVMA9QXi9qeBJcD5dFA\/1ddae950-fb86-11ef-bbda-715b64a7b058.jpg.webp\" \/><br \/>     Moradora de S\u00e3o Paulo acumulou d\u00edvidas ap\u00f3s fazer apostas para tentar pagar d\u00edvidas com poss\u00edvel lucro. Para especialista, o primeiro passo \u00e9 contar situa\u00e7\u00e3o para fam\u00edlia e buscar ajuda psicol\u00f3gica. N\u00famero de brasileiros com d\u00edvidas em atraso subiu 0,5% no \u00faltimo ano<br \/>\nBBC\/Getty Images<br \/>\n&#8220;Desde quando me entendo por gente, nunca tive controle financeiro&#8221;. A coordenadora de recep\u00e7\u00e3o Jennifer de Souza Silva, de 33 anos, diz \u00e0 BBC News Brasil que sempre fez compras por impulso sem se preocupar em como as pagaria.<br \/>\nNos \u00faltimos meses, no entanto, ela conta ter acumulado d\u00edvidas que se tornaram uma &#8220;bola de neve&#8221;.<br \/>\nQuando viu que n\u00e3o conseguiria pagar todas as contas, ela come\u00e7ou a participar de jogos ca\u00e7a-n\u00edqueis online, como o famoso &#8220;jogo do Tigrinho&#8221;, para tentar ganhar dinheiro e quitar as d\u00edvidas.<br \/>\nJennifer n\u00e3o est\u00e1 sozinha. Segundo levantamento feito pela Serasa em outubro de 2024, 44% dos endividados que j\u00e1 apostaram relatam ter jogado com o objetivo de quitar uma d\u00edvida.<br \/>\nPara Jennifer a tentativa resultou em um descontrole ainda maior. Quando percebeu, ela devia n\u00e3o apenas para bancos, familiares, mas tamb\u00e9m para cinco agiotas.<br \/>\n&#8220;Perdi o controle sobre tudo. Tanto as d\u00edvidas quanto os jogos. \u00c0 medida que eu perdia no jogo, me endividava mais e mais&#8221;, diz Jennifer.<br \/>\nEla conta que mantinha as d\u00edvidas em segredo. N\u00e3o contava nem sequer para o marido.<br \/>\n&#8220;Eu carregava tudo sozinha. \u00c0s vezes, at\u00e9 desabafava com algu\u00e9m pedindo ajuda, mas nunca tive coragem de contar toda a verdade. Eu sentia muito medo e vergonha&#8221;, conta.<br \/>\nO marido de Jennifer s\u00f3 soube quando as d\u00edvidas se tornaram &#8220;impag\u00e1veis&#8221; e &#8220;a \u00e1gua j\u00e1 estava batendo no pesco\u00e7o&#8221;.<br \/>\n&#8220;Um dia fiquei aflita porque precisava pagar um dos agiotas, mas ainda faltava dinheiro. No desespero, mandei mensagem para muitas pessoas e acabaram contando para meu marido&#8221;, diz Jennifer.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o foi f\u00e1cil. Ele ficou muito chateado, mas foi tentando entender e est\u00e1 me ajudando. Me sinto mais aliviada, mas muito triste, pois estamos tentando acertar as coisas aos poucos e o sentimento de estar devendo, principalmente pessoas [agiotas], \u00e9 devastador&#8221;, diz a coordenadora de recep\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHoje, ela organizou em uma planilha o que deve e diz que ainda tem R$ 30 mil em d\u00edvidas com agiotas e ao menos mais R$ 70 mil com bancos e familiares. O sal\u00e1rio mensal de Jennifer \u00e9 de R$ 3.600.<br \/>\n&#8220;Eu choro todo o tempo. Por dentro, estou sempre em uma luta de culpa&#8221;, conta.<br \/>\nAgiotagem no Brasil<br \/>\nRecorrer a agiotas foi a \u00faltima op\u00e7\u00e3o de Jennifer, por conta das alt\u00edssimas taxas de juross que geralmente s\u00e3o cobradas nesse tipo de empr\u00e9stimo e pela maneira, algumas vezes violenta, como as cobran\u00e7as s\u00e3o feitas.<br \/>\n&#8220;Comecei pegando empr\u00e9stimos com bancos. Quando n\u00e3o tinha mais cr\u00e9dito com bancos, recorri a familiares, amigos e cinco agiotas&#8221;.<br \/>\nEla conta que n\u00e3o chegou a ser amea\u00e7ada porque conhece alguns dos emprestadores desde a inf\u00e2ncia e nunca atrasou o pagamento.<br \/>\nEla conta que os empr\u00e9stimos mais baratos que ela pegou com agiotas tiveram juros de 20%. Ou seja, quando emprestava R$ 1.000, pagava R$ 1.200.<br \/>\nMas os juros dos empr\u00e9stimos maiores tamb\u00e9m foram mais elevados.<br \/>\n&#8220;Dois (agiotas) me emprestaram R$ 15 mil porque conheciam minha fam\u00edlia e me conheciam desde pequena. Esses dois parcelaram em mais vezes, mas a d\u00edvida cresceu para 40 mil. Foram 20 de 2 mil&#8221;, conta Jennifer.<br \/>\nA economista e professora da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV) Carla Beni explica que a agiotagem \u00e9 um empr\u00e9stimo de dinheiro entre pessoas.<br \/>\n&#8220;H\u00e1 uma possibilidade de voc\u00ea emprestar dinheiro para outra pessoa. Emprestar dinheiro a juros n\u00e3o \u00e9 crime. Agiotagem \u00e9 a cobran\u00e7a de juros extorsivos, prevista no artigo quarto da Lei 1521, que prev\u00ea deten\u00e7\u00e3o de seis meses a dois anos&#8221;, explica.<br \/>\nA professora, entretanto, diz que ap\u00f3s a revoga\u00e7\u00e3o, em 1999, de uma lei que previa um limite de cobran\u00e7a de juros, \u00e9 dif\u00edcil definir o que \u00e9 uma cobran\u00e7a extorsiva. O limite era de 1% ao m\u00eas de juro linear \u2014 12% ao ano.<br \/>\n&#8220;Depois, chegou a existir tarifas de mais de 500% ao ano no rotativo do cart\u00e3o de cr\u00e9dito. A falta de uma lei dificulta [para a v\u00edtima] entrar com processo por juros extorsivos porque voc\u00ea n\u00e3o tem um n\u00famero fechado a esse respeito&#8221;, explica Carla Beni.<br \/>\nEm tese, at\u00e9 um banco tradicional poderia ser condenado por agiotagem.<br \/>\nA economista avalia que, na teoria, &#8220;400% de juros no rotativo do cart\u00e3o \u00e9 agiotagem&#8221;, mas que \u00e9 quase imposs\u00edvel uma pessoa f\u00edsica ganhar uma a\u00e7\u00e3o desse tipo contra um banco na Justi\u00e7a.<br \/>\nA professora explica que o uso da palavra agiota hoje geralmente tem uma conota\u00e7\u00e3o pejorativa, pois esse crime contra a economia popular \u00e9 geralmente ligado \u00e0 coer\u00e7\u00e3o e at\u00e9 amea\u00e7a ou dano f\u00edsico ao devedor.<br \/>\nCa\u00e7a-n\u00edqueis online<br \/>\nJogo do Tigrinho, ou Fortune Tiger, \u00e9 um jogo de ca\u00e7a-n\u00edquel para celulares<br \/>\nBBC\/Reprodu\u00e7\u00e3o\/Fortune Tiger<br \/>\nOs jogos virtuais conhecidos popularmente como &#8220;Jogo do Tigrinho&#8221; s\u00e3o ca\u00e7a-n\u00edqueis online nos quais o jogador aciona uma roleta e torce para que, ao parar, ela forme uma sequ\u00eancia premiada.<br \/>\nJennifer conta que passou a fazer apostas nessas plataformas porque &#8220;n\u00e3o estava vendo o dinheiro com o valor que ele realmente tem&#8221; e viu no jogo uma maneira de quitar as d\u00edvidas.<br \/>\n&#8220;Na mesma hora que eu metia os p\u00e9s pelas m\u00e3os, achando que daria certo, eu me sentia um lixo. Me sentia sozinha&#8221;, conta emocionada \u00e0 reportagem.<br \/>\nJennifer conta que foi afundando ainda mais num limbo psicol\u00f3gico e financeiro.<br \/>\n&#8220;Me sentia no fundo do po\u00e7o quando jogava e perdia o que j\u00e1 n\u00e3o tinha. Isso piorava quando estava chegando as datas de pagar as pessoas. Eu j\u00e1 cheguei a pensar em tirar a minha vida. Assim eu acabaria com tanta dor&#8221;, conta.<br \/>\nUma pesquisa da Serasa, em parceria com a plataforma de pesquisas de mercado Opinion Box, apontou que 5 em cada 10 endividados brasileiros j\u00e1 fizeram pelo menos uma aposta, e 34% deles continuam apostando atualmente.<br \/>\nAinda segundo o levantamento, 44% dos endividados que j\u00e1 apostaram relatam ter jogado com o objetivo de quitar uma d\u00edvida.<br \/>\nReconstru\u00e7\u00e3o financeira<br \/>\nJennifer diz que agora trabalha para reestruturar a sa\u00fade financeira da fam\u00edlia, repensar os erros do passado e servir como exemplo e alerta para outras pessoas em situa\u00e7\u00e3o semelhante. Esse foi inclusive o motivo de ela ter aceitado contar seu relato publicamente.<br \/>\n&#8220;Eu tinha paz. Meu erro foi n\u00e3o dividir minhas dores com minha fam\u00edlia. Espero poder pagar todas as pessoas, principalmente amigos e familiares, e voltar a andar com a minha cabe\u00e7a erguida. E nunca mais passar por isso novamente&#8221;, diz.<br \/>\nJennifer e o marido montaram uma planilha com todas as d\u00edvidas para organizar os pagamentos e n\u00e3o atrasar nenhuma data. A prioridade s\u00e3o os agiotas.<br \/>\nA economista e professora da FGV diz que a &#8220;recomenda\u00e7\u00e3o n\u00famero um&#8221; quando uma pessoa est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o de d\u00edvida como essa \u00e9 buscar ajuda.<br \/>\n&#8220;Essa ajuda \u00e9 falar para a fam\u00edlia. Esse \u00e9 o primeiro ponto. Porque a pessoa fica tomada por um sentimento de vergonha e de fracasso. Ela tem que enfrentar uma quest\u00e3o moral porque a maioria das pessoas que joga faz isso escondido&#8221;, diz.<br \/>\nA especialista diz que muitas fam\u00edlias n\u00e3o sabem do v\u00edcio porque estudos apontam que o pico do hor\u00e1rio em que esses jogos s\u00e3o feitos \u00e9 das 22h \u00e0s 2h. Momento em que muitos filhos e parceiros j\u00e1 est\u00e3o dormindo.<br \/>\n&#8220;O c\u00f4njuge n\u00e3o sabe que o parceiro est\u00e1 jogando. O filho n\u00e3o sabe que o pai joga, o pai n\u00e3o sabe que o filho joga. Primeiro \u00e9 procurar ajuda porque n\u00e3o adianta pensar em reestruturar a quest\u00e3o financeira. Fazer planilha n\u00e3o d\u00e1. N\u00e3o d\u00e1 para pensar em nada disso&#8221;, diz a professora Carla Beni.<br \/>\nJennifer contou \u00e0 reportagem que abriu uma loja de pijamas e come\u00e7ou a trabalhar como motorista de aplicativo aos fins de semana para complementar a renda e pagar o que deve.<br \/>\n&#8220;A vida est\u00e1 uma correria. Mas creio que logo sairei dessa&#8221;, diz.<br \/>\nGra\u00e7as \u00e0 ajuda de amigas,  que fizeram uma vaquinha, Jennifer tamb\u00e9m est\u00e1 recebendo acompanhamento psicol\u00f3gico.<br \/>\nRela\u00e7\u00e3o d\u00edvidas x apostas<br \/>\nSegundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimpl\u00eancia do Consumidor (Peic), feita pela Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Com\u00e9rcio de Bens, Servi\u00e7os e Turismo (CNC), 76,4% das fam\u00edlias brasileiras possu\u00edam algum tipo de d\u00edvida em fevereiro de 2025. No mesmo per\u00edodo de 2024, esse n\u00famero foi de 77,9%.<br \/>\nA maior parte dessas d\u00edvidas, segundo o levantamento, foram feitas com prazos menores e custos mais elevados, como o cart\u00e3o de cr\u00e9dito, que corresponde a 83,8% dessas contas.<br \/>\nIsso \u00e9 um sinal, segundo os especialistas do CNC, que essa d\u00edvida foi feita por pessoas que est\u00e3o &#8220;com a corda no pesco\u00e7o&#8221; e precisaram recorrer ao cr\u00e9dito para quitar os gastos acima do previsto.<br \/>\nJ\u00e1 o n\u00famero daquelas que n\u00e3o ter\u00e3o condi\u00e7\u00e3o de pagar as d\u00edvidas em atraso, como Jennifer, chegou ao patamar de 12,3% em fevereiro.<br \/>\nAs fam\u00edlias com renda de at\u00e9 tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos s\u00e3o as mais afetadas pelo endividamento e inadimpl\u00eancia, segundo a Peic.<br \/>\nO levantamento aponta que 79,7% dessas pessoas tinham d\u00edvidas em fevereiro de 2025. Especialistas afirmam que isso ocorre porque essas s\u00e3o as pessoas que mais necessitam de cr\u00e9dito para consumir.<br \/>\nA economista Carla Beni explica que, no caso de depend\u00eancia de jogos, \u00e9 mais urgente buscar ajuda m\u00e9dica do que tentar planilhar ou buscar mais empr\u00e9stimos para pagar as contas.<br \/>\n&#8220;Se a pessoa tiver um n\u00edvel de v\u00edcio muito grande, ela vai ter que procurar ajuda m\u00e9dica ou tamb\u00e9m jur\u00eddica, porque h\u00e1 uma lei espec\u00edfica s\u00f3 com o superendividamento&#8221;.<br \/>\nA professora explica que h\u00e1 o risco de a pessoa n\u00e3o conseguir mais manter sua sobreviv\u00eancia ou pagar contas b\u00e1sicas de alimenta\u00e7\u00e3o, energia el\u00e9trica e aluguel.<br \/>\n&#8220;Eventualmente, ela precisa procurar o Procon e o tribunal de pequenas causas para pedir ajuda. Existe uma lei do superendividamento que ela pode tentar se enquadrar. Mas \u00e9 muito importante lembrar que ela precisa de ajuda m\u00e9dica, psicol\u00f3gica ou at\u00e9 psiqui\u00e1trica&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moradora de S\u00e3o Paulo acumulou d\u00edvidas ap\u00f3s fazer apostas para tentar pagar d\u00edvidas com poss\u00edvel lucro. Para especialista, o primeiro passo \u00e9 contar situa\u00e7\u00e3o para fam\u00edlia e buscar ajuda psicol\u00f3gica. N\u00famero de brasileiros com d\u00edvidas em atraso subiu 0,5% no \u00faltimo ano BBC\/Getty Images &#8220;Desde quando me entendo por gente, nunca tive controle financeiro&#8221;. A coordenadora de recep\u00e7\u00e3o Jennifer de Souza Silva, de 33 anos, diz \u00e0 BBC News Brasil que sempre fez compras por impulso sem se preocupar em como as pagaria. Nos \u00faltimos meses, no entanto, ela conta ter acumulado d\u00edvidas que se tornaram uma &#8220;bola de neve&#8221;. Quando viu que n\u00e3o conseguiria pagar todas as contas, ela come\u00e7ou a participar de jogos ca\u00e7a-n\u00edqueis online, como o famoso &#8220;jogo do Tigrinho&#8221;, para tentar ganhar dinheiro e quitar as d\u00edvidas. Jennifer n\u00e3o est\u00e1 sozinha. Segundo levantamento feito pela Serasa em outubro de 2024, 44% dos endividados que j\u00e1 apostaram relatam ter jogado com o objetivo de quitar uma d\u00edvida. Para Jennifer a tentativa resultou em um descontrole ainda maior. Quando percebeu, ela devia n\u00e3o apenas para bancos, familiares, mas tamb\u00e9m para cinco agiotas. &#8220;Perdi o controle sobre tudo. Tanto as d\u00edvidas quanto os jogos. \u00c0 medida que eu perdia no jogo, me endividava mais e mais&#8221;, diz Jennifer. Ela conta que mantinha as d\u00edvidas em segredo. N\u00e3o contava nem sequer para o marido. &#8220;Eu carregava tudo sozinha. \u00c0s vezes, at\u00e9 desabafava com algu\u00e9m pedindo ajuda, mas nunca tive coragem de contar toda a verdade. Eu sentia muito medo e vergonha&#8221;, conta. O marido de Jennifer s\u00f3 soube quando as d\u00edvidas se tornaram &#8220;impag\u00e1veis&#8221; e &#8220;a \u00e1gua j\u00e1 estava batendo no pesco\u00e7o&#8221;. &#8220;Um dia fiquei aflita porque precisava pagar um dos agiotas, mas ainda faltava dinheiro. No desespero, mandei mensagem para muitas pessoas e acabaram contando para meu marido&#8221;, diz Jennifer. &#8220;N\u00e3o foi f\u00e1cil. Ele ficou muito chateado, mas foi tentando entender e est\u00e1 me ajudando. Me sinto mais aliviada, mas muito triste, pois estamos tentando acertar as coisas aos poucos e o sentimento de estar devendo, principalmente pessoas [agiotas], \u00e9 devastador&#8221;, diz a coordenadora de recep\u00e7\u00e3o. Hoje, ela organizou em uma planilha o que deve e diz que ainda tem R$ 30 mil em d\u00edvidas com agiotas e ao menos mais R$ 70 mil com bancos e familiares. O sal\u00e1rio mensal de Jennifer \u00e9 de R$ 3.600. &#8220;Eu choro todo o tempo. Por dentro, estou sempre em uma luta de culpa&#8221;, conta. Agiotagem no Brasil Recorrer a agiotas foi a \u00faltima op\u00e7\u00e3o de Jennifer, por conta das alt\u00edssimas taxas de juross que geralmente s\u00e3o cobradas nesse tipo de empr\u00e9stimo e pela maneira, algumas vezes violenta, como as cobran\u00e7as s\u00e3o feitas. &#8220;Comecei pegando empr\u00e9stimos com bancos. Quando n\u00e3o tinha mais cr\u00e9dito com bancos, recorri a familiares, amigos e cinco agiotas&#8221;. Ela conta que n\u00e3o chegou a ser amea\u00e7ada porque conhece alguns dos emprestadores desde a inf\u00e2ncia e nunca atrasou o pagamento. Ela conta que os empr\u00e9stimos mais baratos que ela pegou com agiotas tiveram juros de 20%. Ou seja, quando emprestava R$ 1.000, pagava R$ 1.200. Mas os juros dos empr\u00e9stimos maiores tamb\u00e9m foram mais elevados. &#8220;Dois (agiotas) me emprestaram R$ 15 mil porque conheciam minha fam\u00edlia e me conheciam desde pequena. Esses dois parcelaram em mais vezes, mas a d\u00edvida cresceu para 40 mil. Foram 20 de 2 mil&#8221;, conta Jennifer. A economista e professora da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV) Carla Beni explica que a agiotagem \u00e9 um empr\u00e9stimo de dinheiro entre pessoas. &#8220;H\u00e1 uma possibilidade de voc\u00ea emprestar dinheiro para outra pessoa. Emprestar dinheiro a juros n\u00e3o \u00e9 crime. Agiotagem \u00e9 a cobran\u00e7a de juros extorsivos, prevista no artigo quarto da Lei 1521, que prev\u00ea deten\u00e7\u00e3o de seis meses a dois anos&#8221;, explica. A professora, entretanto, diz que ap\u00f3s a revoga\u00e7\u00e3o, em 1999, de uma lei que previa um limite de cobran\u00e7a de juros, \u00e9 dif\u00edcil definir o que \u00e9 uma cobran\u00e7a extorsiva. O limite era de 1% ao m\u00eas de juro linear \u2014 12% ao ano. &#8220;Depois, chegou a existir tarifas de mais de 500% ao ano no rotativo do cart\u00e3o de cr\u00e9dito. A falta de uma lei dificulta [para a v\u00edtima] entrar com processo por juros extorsivos porque voc\u00ea n\u00e3o tem um n\u00famero fechado a esse respeito&#8221;, explica Carla Beni. Em tese, at\u00e9 um banco tradicional poderia ser condenado por agiotagem. A economista avalia que, na teoria, &#8220;400% de juros no rotativo do cart\u00e3o \u00e9 agiotagem&#8221;, mas que \u00e9 quase imposs\u00edvel uma pessoa f\u00edsica ganhar uma a\u00e7\u00e3o desse tipo contra um banco na Justi\u00e7a. A professora explica que o uso da palavra agiota hoje geralmente tem uma conota\u00e7\u00e3o pejorativa, pois esse crime contra a economia popular \u00e9 geralmente ligado \u00e0 coer\u00e7\u00e3o e at\u00e9 amea\u00e7a ou dano f\u00edsico ao devedor. Ca\u00e7a-n\u00edqueis online Jogo do Tigrinho, ou Fortune Tiger, \u00e9 um jogo de ca\u00e7a-n\u00edquel para celulares BBC\/Reprodu\u00e7\u00e3o\/Fortune Tiger Os jogos virtuais conhecidos popularmente como &#8220;Jogo do Tigrinho&#8221; s\u00e3o ca\u00e7a-n\u00edqueis online nos quais o jogador aciona uma roleta e torce para que, ao parar, ela forme uma sequ\u00eancia premiada. Jennifer conta que passou a fazer apostas nessas plataformas porque &#8220;n\u00e3o estava vendo o dinheiro com o valor que ele realmente tem&#8221; e viu no jogo uma maneira de quitar as d\u00edvidas. &#8220;Na mesma hora que eu metia os p\u00e9s pelas m\u00e3os, achando que daria certo, eu me sentia um lixo. Me sentia sozinha&#8221;, conta emocionada \u00e0 reportagem. Jennifer conta que foi afundando ainda mais num limbo psicol\u00f3gico e financeiro. &#8220;Me sentia no fundo do po\u00e7o quando jogava e perdia o que j\u00e1 n\u00e3o tinha. Isso piorava quando estava chegando as datas de pagar as pessoas. Eu j\u00e1 cheguei a pensar em tirar a minha vida. Assim eu acabaria com tanta dor&#8221;, conta. Uma pesquisa da Serasa, em parceria com a plataforma de pesquisas de mercado Opinion Box, apontou que 5 em cada 10 endividados brasileiros j\u00e1 fizeram pelo menos uma aposta, e 34% deles continuam apostando atualmente. Ainda segundo o levantamento, 44% dos endividados que j\u00e1 apostaram relatam ter jogado com o objetivo de quitar uma d\u00edvida. 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