{"id":44933,"date":"2025-04-29T02:14:35","date_gmt":"2025-04-29T05:14:35","guid":{"rendered":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/2025\/04\/29\/machosfera-brasileira-canais-misoginos-do-youtube-transformam-odio-em-lucro-com-anuncios-doacoes-e-vendas-online\/"},"modified":"2025-04-29T02:14:35","modified_gmt":"2025-04-29T05:14:35","slug":"machosfera-brasileira-canais-misoginos-do-youtube-transformam-odio-em-lucro-com-anuncios-doacoes-e-vendas-online","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/2025\/04\/29\/machosfera-brasileira-canais-misoginos-do-youtube-transformam-odio-em-lucro-com-anuncios-doacoes-e-vendas-online\/","title":{"rendered":"&#039;Machosfera&#039; brasileira: canais mis\u00f3ginos do YouTube transformam \u00f3dio em lucro com an\u00fancios, doa\u00e7\u00f5es e vendas online"},"content":{"rendered":"<p><img  title=\"\"  alt=\"youtube &#039;Machosfera&#039; brasileira: canais mis\u00f3ginos do YouTube transformam \u00f3dio em lucro com an\u00fancios, doa\u00e7\u00f5es e vendas online\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/o2VzFjZ8PksC3pdexVTUotI1qC8=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2025\/V\/q\/99dzqbSA2CBDtPV5HaZw\/youtube.jpg\" \/><br \/>     Influenciadores da machosfera movimentam milhares de reais na plataforma com conte\u00fado que promove \u00f3dio contra as mulheres, segundo pesquisa realizada pelo NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) . YouTube<br \/>\nRashidul Islam\/Unsplash<br \/>\nQuando criou o blog Escreva Lola Escreva, em 2008, a professora da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC) e blogueira feminista n\u00e3o imaginava que dar visibilidade a casos de machismo e misoginia a colocaria no centro de uma campanha sistem\u00e1tica de \u00f3dio online.<br \/>\nMuito menos que, anos depois, esse mesmo discurso violento se tornaria altamente lucrativo.<br \/>\n&#8220;Desde a primeira semana de blog tinha coment\u00e1rios mis\u00f3ginos, mas n\u00e3o necessariamente amea\u00e7as&#8221;, relata Lola, que criou seu blog para ter liberdade editorial para falar sobre feminismo, cinema, literatura, pol\u00edtica, entre outros temas.<br \/>\n&#8220;Em 2010, chegou at\u00e9 mim um link para sites masculinistas e comunidades no Orkut. Comecei a entrar e vi que eles j\u00e1 falavam sobre mim enquanto eu nem sabia da exist\u00eancia deles.&#8221;<br \/>\nCom o avan\u00e7o da internet, esses grupos masculinistas ampliaram e diversificaram o discurso de \u00f3dio contra as mulheres e conquistaram legi\u00f5es de seguidores.<br \/>\nHoje, conseguem monetizar v\u00eddeos e transformam a misoginia em um neg\u00f3cio rent\u00e1vel, movimentando milhares de reais com conte\u00fados que pregam o controle sobre mulheres, deslegitimam o feminismo e refor\u00e7am estere\u00f3tipos de g\u00eanero.<br \/>\nAtualmente, 137 canais no YouTube no Brasil publicam conte\u00fado explicitamente mis\u00f3gino, somando mais de 105 mil v\u00eddeos e cerca de 152 mil inscritos.<br \/>\nPesquisa identifica 137 canais com conte\u00fado mis\u00f3gino no YouTube no Brasil<br \/>\nOs dados s\u00e3o de uma pesquisa realizada pelo NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para o Minist\u00e9rio das Mulheres. Ela foi divulgada em dezembro do ano passado.<br \/>\nA pesquisa mapeou a chamada &#8220;machosfera&#8221; e descobriu que cerca de 80% desses canais adotam pelo menos uma estrat\u00e9gia de monetiza\u00e7\u00e3o, que incluem an\u00fancios, doa\u00e7\u00f5es em transmiss\u00f5es ao vivo, assinaturas e venda de servi\u00e7os e produtos.<br \/>\n&#8220;A machosfera se divide em subculturas com diferentes n\u00edveis de misoginia, como os red pills, incels e at\u00e9 nomes menos conhecidos, como os \u2018pick-up artists&#8217;, que ensinam t\u00e9cnicas de manipula\u00e7\u00e3o para conquistar mulheres e refor\u00e7am estere\u00f3tipos de g\u00eanero&#8221;, diz D\u00e9bora Salles, coordenadora do NetLab da UFRJ.<br \/>\n&#8220;Observamos que o \u00f3dio contra as mulheres se transformou num neg\u00f3cio rent\u00e1vel, n\u00e3o s\u00f3 para esses canais, mas principalmente para as plataformas. Nesse caso, para o YouTube.&#8221;<br \/>\n&#8216;Adolesc\u00eancia&#8217;: como surgiu a sinistra &#8216;machosfera&#8217; retratada pela s\u00e9rie<br \/>\nO mercado da misoginia<br \/>\nEntre as estrat\u00e9gias para monetizar, a mais comum entre os canais analisados \u00e9 a exibi\u00e7\u00e3o de an\u00fancios no YouTube: 52% deles exibem ao menos um v\u00eddeo com publicidade.<br \/>\nEm seguida, est\u00e1 o Programa de Membros da plataforma \u2013 ferramenta que permite ao p\u00fablico pagar uma assinatura mensal em troca de conte\u00fados exclusivos \u2013, adotado por 28% dos canais mis\u00f3ginos. As assinaturas podem custar de R$12,50 a R$ 149 por m\u00eas, segundo a pesquisa.<br \/>\nNo entanto, uma das formas mais lucrativas de monetiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o os Super chats \u2013 doa\u00e7\u00f5es feitas por espectadores durante transmiss\u00f5es ao vivo. Em 257 lives de oito canais, o estudo identificou uma arrecada\u00e7\u00e3o total que supera R$ 68 mil, com uma m\u00e9dia de R$ 267 por transmiss\u00e3o.<br \/>\nAl\u00e9m das ferramentas da plataforma, 28% dos canais analisados tamb\u00e9m vendem cursos, produtos e servi\u00e7os ou recebem doa\u00e7\u00f5es por Pix.<br \/>\nEm alguns casos, influenciadores chegam a cobrar R$ 1 mil por consultas individuais que abordam desde &#8220;treinamento emocional&#8221; at\u00e9 conte\u00fados que naturalizam viol\u00eancia psicol\u00f3gica e humilha\u00e7\u00e3o. No caso da venda de e-books anunciados, os pre\u00e7os ofertados variam entre R$ 17,90 e R$ 397.<br \/>\n&#8220;Atualmente, as redes sociais s\u00e3o baseadas em uma economia da aten\u00e7\u00e3o que premia conte\u00fados sensacionalistas e divisivos&#8221;, diz Mariana Valente, professora da Universidade de St.Gallen e diretora do InternetLab, centro independente de pesquisa focado em internet e direitos humanos.<br \/>\n&#8220;Isso faz com que a plataforma n\u00e3o tenha interesse em controlar e eliminar esses conte\u00fados.&#8221;<br \/>\n\u2018Machosfera\u2019: o que prega o movimento machista que cresce nas redes sociais<br \/>\nMachosfera: o que \u00e9 o movimento machista das redes sociais que virou caso de pol\u00edcia<br \/>\nPol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o falhas<br \/>\nO YouTube pro\u00edbe, segundo suas diretrizes de uso, conte\u00fados que promovam viol\u00eancia ou discurso de \u00f3dio com base em sexo, g\u00eanero ou orienta\u00e7\u00e3o sexual.<br \/>\nAs regras se aplicam a v\u00eddeos, transmiss\u00f5es ao vivo, coment\u00e1rios e at\u00e9 links externos. A empresa afirma que, ao identificar esse tipo de conte\u00fado \u2013 inclusive por meio de den\u00fancias \u2013, ele \u00e9 removido.<br \/>\nNa pr\u00e1tica, a efic\u00e1cia dessas pol\u00edticas tem se mostrado limitada.<br \/>\nA pesquisa aponta que os produtores de conte\u00fado da machosfera empregam diversas estrat\u00e9gias para fugir da modera\u00e7\u00e3o do YouTube, como uma linguagem pr\u00f3pria para mascarar o car\u00e1ter mis\u00f3gino das mensagens.<br \/>\n&#8220;Percebemos que as plataformas e, mais especificamente, o YouTube, n\u00e3o est\u00e3o conseguindo dar conta desse problema&#8221;, afirma Salles.<br \/>\n&#8220;Quem tem o poder de tirar esse conte\u00fado do ar \u00e9 a plataforma, mas ela faz isso sem cumprir regras transparentes sobre quem pode ficar e por que fica, ou quem sai e por que sai.&#8221;<br \/>\nA blogueira feminista Lola viveu essa ambiguidade em 2018, quando tentou criar um canal no YouTube e descobriu que estava banida \u2014 apesar de nunca ter publicado v\u00eddeos nem infringido regras nos poucos coment\u00e1rios que havia feito na plataforma.<br \/>\nProfessora Lola Aronovich<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\n&#8220;Suspeito que meu nome tenha sido usado por grupos masculinistas para coment\u00e1rios de \u00f3dio at\u00e9 que eu estivesse banida&#8221;, conta Lola.<br \/>\n&#8220;Criei outro canal com um novo e-mail, que tamb\u00e9m foi removido no ano passado ap\u00f3s den\u00fancias dos masculinistas. Hoje, n\u00e3o posso ter nenhum tipo de remunera\u00e7\u00e3o l\u00e1.&#8221;<br \/>\n&#8220;\u00c9 revoltante, porque eu n\u00e3o conhe\u00e7o quase nenhuma feminista que ganha dinheiro no YouTube, mas antifeminista \u00e9 o que mais tem, e eles ganham muito dinheiro com isso&#8221;, completa a blogueira.<br \/>\nProcurada, a assessoria do YouTube n\u00e3o respondeu at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o deste texto.<br \/>\nProblema al\u00e9m do digital<br \/>\nSegundo especialistas, a cultura da machosfera ajudou a criar um ambiente t\u00f3xico para as mulheres nas redes sociais, especialmente aquelas com algum tipo de atua\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u2013 como pol\u00edticas, jornalistas e influenciadoras digitais. Elas s\u00e3o constantemente hostilizadas e t\u00eam as vidas diretamente afetadas.<br \/>\nA criadora de conte\u00fado Ana Schreder diz que passou a ser alvo constante de ataques desde que viralizou no TikTok rebatendo coment\u00e1rios da comunidade red pill. Embora tenha mudado o foco dos v\u00eddeos para temas como autoconhecimento e bem-estar, a viol\u00eancia persistiu.<br \/>\n&#8220;Eles se incomodam absurdamente com o meu jeito de ser. S\u00f3 o fato de eu estar na internet, sendo mulher, falando da minha vida, da minha autoestima, sem tentar agradar a homens, j\u00e1 \u00e9 motivo para ataques&#8221;, afirma Schreder.<br \/>\n&#8220;Pegam v\u00eddeos meus do TikTok, publicam no X (antigo Twitter), fazem rea\u00e7\u00f5es no YouTube, e os coment\u00e1rios s\u00e3o nojentos.&#8221;<br \/>\nAl\u00e9m de conte\u00fado com misoginia disfar\u00e7ada, a pesquisa tamb\u00e9m encontrou v\u00eddeos que encorajam, relativizam ou justificam abusos e viol\u00eancias contra mulheres, utilizando argumentos que culpabilizam as v\u00edtimas ou normalizam comportamentos violentos.<br \/>\n&#8220;Meninos muito jovens t\u00eam acesso a esses conte\u00fados e v\u00e3o naturalizando piadas que v\u00e3o desde \u2018lugar de mulher \u00e9 na cozinha&#8217; at\u00e9 um coment\u00e1rio de \u2018se sua namorada te desagrada, voc\u00ea d\u00e1 um tap\u00e3o na cara dela'&#8221;, ressalta a diretora do InternetLab.<br \/>\nSegundo a pesquisa, o n\u00famero de v\u00eddeos da machosfera no YouTube aumentou significativamente desde 2022, com 88% publicados nos \u00faltimos tr\u00eas anos.<br \/>\nNo mesmo per\u00edodo, os dados de viol\u00eancia contra mulheres tamb\u00e9m aumentaram. Entre 2021 e 2023, o n\u00famero de feminic\u00eddios subiu de 1.347 para 1.463, segundo o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar tamb\u00e9m cresceram quase 10% entre 2022 e 2023.<br \/>\nEmbora a pesquisa n\u00e3o estabele\u00e7a uma rela\u00e7\u00e3o direta entre o crescimento desses discursos e o aumento da viol\u00eancia, a ministra das Mulheres, Cida Gon\u00e7alves, afirmou \u00e0 reportagem que o \u00f3dio contra as mulheres disseminado nas redes repercute no pa\u00eds inteiro.<br \/>\n&#8220;Esse tipo de discurso termina por autorizar a viol\u00eancia que tem crescido contra meninas, adolescentes e mulheres idosas no Brasil&#8221;, afirma Gon\u00e7alves.<br \/>\n&#8220;Estamos vivendo um momento muito complicado e, para o governo federal, uma regula\u00e7\u00e3o m\u00ednima das plataformas \u00e9 estrat\u00e9gica. Para o Minist\u00e9rio das Mulheres, essa regula\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para que as mulheres n\u00e3o vivam nessa situa\u00e7\u00e3o constante de viol\u00eancia.&#8221;<br \/>\nDiscord: o que \u00e9 a rede social usada para cometer crimes contra adolescentes?<br \/>\nDesafio da regula\u00e7\u00e3o<br \/>\nAo longo dos anos, \u00e0 medida que o blog de Lola Aronovich se consolidava como uma das principais refer\u00eancias do movimento feminista no Brasil, os ataques mis\u00f3ginos e a persegui\u00e7\u00e3o por parte de grupos masculinistas tamb\u00e9m se intensificavam.<br \/>\nAs agress\u00f5es inclu\u00edam amea\u00e7as diretas e at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de sites com o objetivo de difamar sua imagem. Lola afirma que ainda recebe amea\u00e7as diretas com frequ\u00eancia.<br \/>\n&#8220;Todo final de ano eles me ligam para dizer que vai ser meu \u00faltimo Natal e Ano Novo viva. Muita gente me pergunta como lido com isso e, infelizmente, a gente se acostuma. \u00c9 horr\u00edvel dizer isso, porque n\u00e3o dever\u00edamos ter que nos acostumar, mas \u00e9 verdade.&#8221;<br \/>\nO ativismo de Lola e suas den\u00fancias ao longo dos anos resultaram, em 2018, na aprova\u00e7\u00e3o da chamada Lei Lola \u2013 a primeira legisla\u00e7\u00e3o brasileira a incluir o termo misoginia, e que atribui \u00e0 Pol\u00edcia Federal a responsabilidade de investigar a dissemina\u00e7\u00e3o de conte\u00fados de \u00f3dio contra mulheres na internet.<br \/>\nNo entanto, cerca de sete anos ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o, a blogueira afirma que a lei ainda n\u00e3o foi devidamente implementada.<br \/>\n&#8220;Desde que a lei foi criada, tentamos marcar uma reuni\u00e3o com a dire\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal para discutir quest\u00f5es b\u00e1sicas, como a cria\u00e7\u00e3o de um canal espec\u00edfico de den\u00fancias e os crit\u00e9rios de aplica\u00e7\u00e3o da lei, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o conseguimos avan\u00e7ar.&#8221;<br \/>\nEspecialistas destacam que a falta de regulamenta\u00e7\u00e3o eficaz da internet, somada \u00e0 n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o das leis existentes, permite que conte\u00fados mis\u00f3ginos sigam circulando e gerando lucro. Sem regula\u00e7\u00e3o, as plataformas n\u00e3o s\u00e3o obrigadas a remov\u00ea-los.<br \/>\nSegundo Mariana Valente, o Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, foi um passo importante ao estabelecer diretrizes para responsabilizar provedores em casos espec\u00edficos, como a divulga\u00e7\u00e3o n\u00e3o consensual de imagens \u00edntimas.<br \/>\nNo entanto, ela ressalta que a legisla\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 insuficiente para enfrentar o conjunto de viol\u00eancias digitais com base em g\u00eanero.<br \/>\nSegundo especialistas, a regula\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser vista como solu\u00e7\u00e3o \u00fanica e precisa estar atrelada a um conjunto de pol\u00edticas p\u00fablicas que envolvam diferentes \u00e1reas, como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, seguran\u00e7a e justi\u00e7a. &#8220;Isso tem que ser adotado como um objetivo por muitos atores sociais&#8221;, afirma Valente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Influenciadores da machosfera movimentam milhares de reais na plataforma com conte\u00fado que promove \u00f3dio contra as mulheres, segundo pesquisa realizada pelo NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) . YouTube Rashidul Islam\/Unsplash Quando criou o blog Escreva Lola Escreva, em 2008, a professora da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC) e blogueira feminista n\u00e3o imaginava que dar visibilidade a casos de machismo e misoginia a colocaria no centro de uma campanha sistem\u00e1tica de \u00f3dio online. Muito menos que, anos depois, esse mesmo discurso violento se tornaria altamente lucrativo. &#8220;Desde a primeira semana de blog tinha coment\u00e1rios mis\u00f3ginos, mas n\u00e3o necessariamente amea\u00e7as&#8221;, relata Lola, que criou seu blog para ter liberdade editorial para falar sobre feminismo, cinema, literatura, pol\u00edtica, entre outros temas. &#8220;Em 2010, chegou at\u00e9 mim um link para sites masculinistas e comunidades no Orkut. Comecei a entrar e vi que eles j\u00e1 falavam sobre mim enquanto eu nem sabia da exist\u00eancia deles.&#8221; Com o avan\u00e7o da internet, esses grupos masculinistas ampliaram e diversificaram o discurso de \u00f3dio contra as mulheres e conquistaram legi\u00f5es de seguidores. Hoje, conseguem monetizar v\u00eddeos e transformam a misoginia em um neg\u00f3cio rent\u00e1vel, movimentando milhares de reais com conte\u00fados que pregam o controle sobre mulheres, deslegitimam o feminismo e refor\u00e7am estere\u00f3tipos de g\u00eanero. Atualmente, 137 canais no YouTube no Brasil publicam conte\u00fado explicitamente mis\u00f3gino, somando mais de 105 mil v\u00eddeos e cerca de 152 mil inscritos. Pesquisa identifica 137 canais com conte\u00fado mis\u00f3gino no YouTube no Brasil Os dados s\u00e3o de uma pesquisa realizada pelo NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para o Minist\u00e9rio das Mulheres. Ela foi divulgada em dezembro do ano passado. 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As regras se aplicam a v\u00eddeos, transmiss\u00f5es ao vivo, coment\u00e1rios e at\u00e9 links externos. A empresa afirma que, ao identificar esse tipo de conte\u00fado \u2013 inclusive por meio de den\u00fancias \u2013, ele \u00e9 removido. Na pr\u00e1tica, a efic\u00e1cia dessas pol\u00edticas tem se mostrado limitada. A pesquisa aponta que os produtores de conte\u00fado da machosfera empregam diversas estrat\u00e9gias para fugir da modera\u00e7\u00e3o do YouTube, como uma linguagem pr\u00f3pria para mascarar o car\u00e1ter mis\u00f3gino das mensagens. &#8220;Percebemos que as plataformas e, mais especificamente, o YouTube, n\u00e3o est\u00e3o conseguindo dar conta desse problema&#8221;, afirma Salles. &#8220;Quem tem o poder de tirar esse conte\u00fado do ar \u00e9 a plataforma, mas ela faz isso sem cumprir regras transparentes sobre quem pode ficar e por que fica, ou quem sai e por que sai.&#8221; A blogueira feminista Lola viveu essa ambiguidade em 2018, quando tentou criar um canal no YouTube e descobriu que estava banida \u2014 apesar de nunca ter publicado v\u00eddeos nem infringido regras nos poucos coment\u00e1rios que havia feito na plataforma. Professora Lola Aronovich Arquivo pessoal &#8220;Suspeito que meu nome tenha sido usado por grupos masculinistas para coment\u00e1rios de \u00f3dio at\u00e9 que eu estivesse banida&#8221;, conta Lola. &#8220;Criei outro canal com um novo e-mail, que tamb\u00e9m foi removido no ano passado ap\u00f3s den\u00fancias dos masculinistas. Hoje, n\u00e3o posso ter nenhum tipo de remunera\u00e7\u00e3o l\u00e1.&#8221; &#8220;\u00c9 revoltante, porque eu n\u00e3o conhe\u00e7o quase nenhuma feminista que ganha dinheiro no YouTube, mas antifeminista \u00e9 o que mais tem, e eles ganham muito dinheiro com isso&#8221;, completa a blogueira. Procurada, a assessoria do YouTube n\u00e3o respondeu at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o deste texto. Problema al\u00e9m do digital Segundo especialistas, a cultura da machosfera ajudou a criar um ambiente t\u00f3xico para as mulheres nas redes sociais, especialmente aquelas com algum tipo de atua\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u2013 como pol\u00edticas, jornalistas e influenciadoras digitais. Elas s\u00e3o constantemente hostilizadas e t\u00eam as vidas diretamente afetadas. A criadora<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":44934,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-44933","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-tecnologia"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44933","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44933"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44933\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/44934"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44933"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44933"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tiproject.online\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44933"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}